Ele ganhou dinheiro, ele assinou contrato
E comprou um terno, trocou o carro
E desaprendeu a caminhar no céu, e foi o princípio do fim
O farol estava aberto, mas isso não fazia diferença. O trânsito era tanto que Beto já havia contado: o verde apareceu 5 vezes, e ele andou quanto? 6, talvez 8 metros. Trocou a estação de rádio e encostou-se completamente no banco, esticando os braços, apoiados no volante.
Olhou para o lado, distraído, cansado de contar quantas vezes o semáforo mudava de cor. No próximo verde, dava pra passar. Foi então que ele o viu.
***
O passageiro no táxi parecia impaciente:
- Colega, aqui sempre tem esse trânsito todo?
- É, às vezes tem. Mas às vezes não tem, também. Depende muito, doutor…
- E não tem outro caminho pra chegar lá?
- Olha, doutor… ter, tem. Eu costumo dizer pros passageiros que sempre tem outro caminho pra chegar em qualquer lugar. Mas a gente não tem como sair daqui antes daquele farol ali, não.
- Tá. Tudo bem, então. Deixa pra lá – e pensou em quanto odiava o rodízio municipal. Pegou o celular, discou, e esperou a voz feminina, familiar, atender. Avisou a secretária, em meio a caretas e ao barulho de algumas buzinas, que chegaria atrasado, e pediu que avisasse os outros acionistas que compareceriam à reunião. O motorista olhou pelo retrovisor com ar admirado para o passageiro.
“Nossa!” – pensou – “Esse é doutor mesmo, é até acionista!” Era difícil pegar corridas assim, com gente importante, naquela parte da cidade. O interesse pelo passageiro surgiu desde que ele entrou no carro, de terno, gravata e maleta de notebook, cheirando a colônia importada – “E importada, mesmo, não é dessas que qualquer um compra, não, eu sei reconhecer quando o passageiro tem … esse aí é granfino. E gente de dinheiro não gosta de assuntar com taxista, não. Eles nunca dão muita atenção pra conversa”.
***
Era inacreditável a coincidência! Como, ali, no meio do trânsito, encontrar o Nando! O Nando Batata, o Luís Fernando – que odiava o primeiro nome, e pedia que todo mundo o chamasse de Nando, apenas – que incrível! Era ele no táxi, Beto tinha certeza. Ele nunca confundiria aquele rosto, mesmo depois desses últimos 5 anos. Parou, perplexo, de boca aberta. 5 anos, 5 anos! Como é que alguém passa 5 anos longe do melhor amigo, aquele que conhece você até o último fio de cabelo? O que havia acontecido, mesmo? Ah, sim, essa moda de mudarem de número de telefone com a mesma freqüência com que se troca de escova de dentes. Beto nunca mais conseguiu falar com o Batata, o celular agora era de outra pessoa, e o residencial também havia mudado. E o Nando Batata tinha mudado para um apartamento, mas ninguém no bairro sabia o endereço. Beto tentou consultar a lista, ligou para a Telefônica, e nada. Havia perdido o Batata de vista… e o Batata com certeza tinha perdido seu número, também, porque nunca mais ligou. E, agora, ali estavam os dois, lado a lado, no trânsito da Radial Leste.
Beto e Nando cresceram juntos. A mãe do Beto, dona Sandra, ajudou a mãe do Batata quando o marido a abandonou, sozinha, com um filho recém-nascido nos braços. Elas já se conheciam há algum tempo, “amizade de mercado”, dizia o pai do Beto, mas dona Sandra fez que fez até conseguir convencer o marido a dar abrigo pra Sheila – era o nome dela. Afinal, uma mãe, abandonada, prestes a ser despejada… era desumano não fazer nada. Depois de dois anos e meio Sheila saiu de lá, mas continuou morando no bairro, e o Batata – o nariz dele é que justificava o apelido – continuou freqüentando mais a casa do Beto – o Betinho, como ele chamava – do que a própria. Estudaram juntos até o terminarem o colégio, eram a dupla terrível da escola. Estavam juntos no primeiro porre; na primeira briga; no primeiro emprego – office-boys no escritório de contabilidade do senhor Martinho. Aprontavam várias. Descobriram as mulheres na mesma época, e nada nem ninguém os separava. Eram como irmãos, e era assim que Nando gostava de apresentar o amigo: “Esse aqui é o meu irmão, o Beto”.
Depois de um ano de emprego, o escritório do senhor Martinho fechou. O Nando conseguiu um emprego de auxiliar administrativo em uma firma grande, e o Beto foi trabalhar de empacotador em um mercadinho do bairro. Era temporário, mas de mês em mês ele foi ficando, até conseguir ser caixa, e depois virou fiscal de caixa. “É temporário”, ainda dizia para si mesmo todo dia, mas a namorada grávida, as despesas com a mãe doente, o aluguel de todo mês não davam tempo pra ele pensar em nada melhor.
- Quando tudo melhorar, Celinha, eu faço um curso e arrumo um emprego melhor. – E a Celinha, barriga de 6 meses, caixa do mercado, olhava feliz pra ele, depois pra barriga, e sorria.
Nesse tempo todo no mercado, Beto sabia que a rotina dos amigos havia mudado. Nando trabalhava demais, e a firma era longe. Eles mal tinham tempo pra se ver, e no final de semana Beto tinha que abrir e fechar o mercado. Não havia mais tempo pro futebol no sábado de manhã, nem pro filme, nem pro pagode de domingo, pra cerveja. E quando Beto conseguia folga, o Nando sempre tinha alguma coisa pra fazer.
Assim foi indo, por uns três anos e meio em que eles ainda conversavam, sempre que o Beto ligava – bom, só o Beto ligava. Ele sabia que o Nando estava com um cargo bem melhor, diretor de qualquer coisa que ele não conseguia lembrar pra contar pra Celinha, e sabia também que ele estava terminando a faculdade. Tinha orgulho do amigo, era como ver um irmão se dar bem na vida, uma felicidade enorme. Depois disso foi que o Beto ligou pra convidar o Nando pra um churrasco de aniversário, e descobriu que os telefones haviam mudado.
- Alô.
- Nando!!! É o Beto.
- Desculpa, esse telefone não é de nenhum Fernando - disse a voz do outro lado da linha.
- Tem certeza? Olha, o número aí é… ?
- É esse mesmo, mas não é de nenhum Fernando. A linha é nova, comprei faz pouco tempo.
- Ah, Nando, pára de brincadeira!
- Desculpa, já disse que esse número…
- Ah… Tá, desculpa. É que além de tudo sua voz é parecida, foi mal, mesmo, cara…desculpa.
Isso se repetiu umas três vezes, até que Beto se convenceu de que realmente estava discando certo, e de que o Fernando tinha mesmo mudado de número.
Então, 5 anos se passaram…
***
Tudo isso passava em flashs na cabeça de Beto enquanto ele olhava o táxi, aquele passageiro de celular na mão, e pensava no que ia fazer. Buzinou. Buzinou de novo. O taxista olhou. Beto acenou e o taxista entendeu.
- Doutor – e apontou o dedo pra direita -, está chamando o senhor.
Beto tinha aberto o vidro do carro adesivado do mercado, e acenava euforicamente. Nando baixou o vidro, deu um sorriso indecifrável, ergueu as sobrancelhas:
- Puxa, Beto… há quanto tempo!
- Nando, caramba, não acredito! Que bom, que felicidade, cara!
- Doutor, o farol vai abrir…
- Tá indo pro escritório?
- É, estou.
- E aí, como você está? Onde você está morando? Cara, te procurei tanto…
- Doutor…
- … olha, olha, o farol vai abrir, Nando… me passa seu telefone, cara, eu te ligo. A gente precisa conversar… Tanto tempo…
O sorriso de Fernando vacilou, e ele passou o número. Beto anotou num papel, e guardou no bolso da camisa. O semáforo abriu, e os dois carros se separaram.
***
- Coincidência, hein, doutor? Reencontrar um amigão, assim, no trânsito!
- É, mais ou menos… – deu uma pausa enquanto abria a maleta a ligava o notebook – … não é amigo, não, ele só estudou comigo.
- Ah, entendi… puxa, e o nome do senhor é Fernando, também, doutor! Sabia que o senhor era gente boa, reconheci logo. Eu chamo Fernando – e sorriu – e meu filho também, o Fernandinho. Nossa, o senhor acredita que…
- Não, não, colega. Meu nome é Luís. É Luís Fernando, mas ninguém me chama pelo segundo nome, eu não gosto. É Luís.
E começou a digitar alguma coisa no notebook, enquanto o taxista, calado, pensava que realmente essa gente com dinheiro não gosta de conversa.
E o Beto, no final do dia, percebeu que sabia o que ia ouvir se ligasse pro Nando. O número não tinha mudado, era o mesmo que estava na velha agendinha com capa de acrílico, do lado do telefone da sala. O número era o mesmo, o Nando é que não era.
E eu vi tudo isso ali, da calçada do cruzamento onde os dois se encontraram. Ouvi a conversa e vi a expressão no rosto do Nando – ou do Luís, que seja! E pensei que é uma pena que os meninos um dia cresçam.