Sabe, eu já estava cansado. E com fome, pra dizer bem a verdade. Era o terceiro dia depois que o menino foi embora; a comida tinha acabado um dia antes, e meu estômago estava, assim, todo coladinho, de tão vazio.

O quê? Ah, o que eu fiz? Eu tentei chamar de novo, né. Chamei, chamei… mas ela não respondia. Não, não, nem se mexia; nada, mesmo.

Ah, claro que eu estranhei. No dia anterior eu não insisti muito; pensei que ela estivesse de mau humor, triste, com saudades do menino, assim como eu. Até porque ultimamente eles eram muito unidos: o menino dava mais atenção a ela que a mim. Não, não, eu não tinha ciúmes; sei que às vezes as pessoas se empolgam com as amizades novas, é assim mesmo. E eu também gostava muito dela, então sempre corria atrás dos dois.

É, eu corria. Eles brincavam juntos o dia todo… e eu nem sei porque ele não a levou junto, viu? Pelo que ouvi as pessoas da casa dizerem, ele partiu de repente, ninguém esperava. Disseram também que ele era muito novo, mas essa parte eu não entendi direito – o que tem a ver ele ser novo e não poder partir de repente? Depois foram todos embora, levaram muitas coisas, mas deixaram nós dois aqui.

Não, acho que não. A vizinha disse que eles não voltam mais; mas eu não sei se acredito nela: ela disse que ia trazer mais comida pra mim, e não trouxe. Não confio, não.

Sim, sim, desculpe… voltando a esse dia: eu chamei muito, mas ela nem se mexia – tão estranho! Justo ela, que sempre corria tanto – eu tinha que correr muito pra alcançá-la quando ela estava com o menino, e olhe que eu não sou um cachorro que corre pouco!

Bem, eu desisti. A fome era muita, ela não respondeu, mesmo depois de todos os meus apelos, ameaças… mesmo depois de eu ter dito a ela que devíamos nos amparar, pois éramos as únicas coisas vivas que sobraram na casa. Vim embora pra cá, atrás de uma vida melhor.

Não, não voltei… mas é claro que me preocupo com ela. Mas fazer o quê? As bicicletas são criaturas estranhas, têm essa coisa de, às vezes, quererem ficar quietas, na parede, esperando não sei o quê. Se ela ficou esperando o menino, tomara, mesmo, que ele volte logo.

Emprego novo. Prédio grande. Terceiro andar. Ana.

Mudança de endereço comercial. Prédio novo. Terceiro andar. Um tal.

Conhecem-se no dia da briga lá em baixo: cada qual em sua janela olhando pro mesmo ponto. Alguma coisa em comum, ela pensa. Tem uns peitões…, ele diz pros amigos.

Paquera de janela. Do lado par pro lado ímpar. Do lado ímpar pro lado par.

 

Janela.

Olhares ali por cima da rua: observando dias e dias; observados de perto pelos pombos nos fios elétricos. Por acaso, só desencontro: Eu entro mais tarde. Preciso dar um jeito de encontrar com ela.

Ele parece tão doce! O jeito que me olha… Ela sai mais tarde, eu percebi… Já pensou só se ele me espera um dia, se sai mais tarde? Esperar??? Será que ele é romântico? Tanto tempo sozinha… É gostosa, mas nem é, né, Almir… Esperar aqui duas horas é de foder!

 

Janela, janela.

Ele podia um dia mandar flores, ou chocolate, né? Ah, mas eu ainda pego essa aí de jeito.

 

Janela, janela, janela.

Ele tem vontade e espera na calçada do lado par da rua. Ela gosta, mas se assusta, não desce, um nãodejeitonenhum dito assim tudo junto, várias vezes.

 

Janela, janela, janela, janela.

Ela tem coragem, sai mais cedo na sexta, sim, claro, dou um jeito!, e espera do lado ímpar.

                                                                                                        

Janela.

[Ah, ele não é bonito... Ela é míope.]

Janela, janela.

[Ah, mas e a janela? Tanto tempo sozinha... Os olhos são bonitos.]

.

ja-ne-la

[Fecha os olhos e pensa nas flores possíveis. Nossa, esses peitos enchem a mão...]

.

j-a-n-e-l-a

[O beijo é estranho, mas entra no carro mesmo assim.]

já, nela… j-á n-e-l-a… já… ne… l… a…

 

…já?

 

 

 O sábado tem um celular que não toca, futebol e cerveja. Mas uns peitões, Almir, nossa… bicho, é sério, você precisa ver aquilo!

 

Na segunda-feira, uma persiana do lado ímpar.

Persiana, persiana.

 .

 Per-si-a-na,

 .

 .

p-e-r-s-i-a-n-a,

per-si, Ana.

A vizinha descobriu hoje, depois de todos os outros habitantes de sua casa, que vai ter que mudar de seu lar doce lar. Até o Rex já sabia; na verdade, foi o Rex quem me contou hoje – uma informação negociada em troca de um pouco mais de ração e batatas fritas no café da manhã.

Eu parei pra contabilizar: já morei em nove casas diferentes, o que significa que já participei de oito desses eventos que chamamos de mudanças.

Não, é claro que não gosto. Além de não gostar de ter sido a última pessoa a saber da, digamos, boa nova, não gosto da idéia de trocar de vizinhança. Quem já mudou de endereço uma vez na vida sabe o trabalho que dá recolher todos os tupawer que foram emprestados com pedaços de bolos de milho ou de cenoura, ou com aquela porçãozinha de batatas ou com aquele assado que só o Rex não gosta; só quem já colocou o guarda-roupa em cima de um caminhão sabe o trabalho que dá se integrar à nova vizinhança, saber dos assuntos e das fofocas e dos horários e dos hábitos dos vizinhos … e também sabe o trabalho que dá desmontar e remontar o tal guarda-roupa depois; só quem já encaixotou todas as louças, embrulhadinhas assim em jornal velho, sabe como é que coisas perdidas há anos aparecem pra sumir logo em seguida, na casa nova… e sabe também o trabalho que dá arrumar tantas caixas e tanto jornal.

Não, não é fácil, não. Acho que só os funcionários da Granero gostam de verdade das mudanças.

Os fatos são: eu vou ter que mudar; provavelmente a casa será menor, talvez não caiba o Rex, talvez não caiba eu; talvez seja ainda mais far away de qualquer lugar que eu frequento; e a pior de todas as hipóteses: talvez eu tenha que dividir o quarto com um irmão mais novo, cuja noção de limpeza, organização, cuidado e respeito às coisas alheias, numa escala de 0 a 10, fica em -138,7.

Dessa forma, deixo aqui o meu anúncio:

Pretendente a vizinha, bonita, nova, solteira, observadora e faladora demais e com hábitos noturnos e estranhos, porém limpinha e educadinha, procura casa para alugar, com três quartos e espaço para um cachorro escritor, com uma vaga na garagem, em localização de fácil acesso a metrô, perfumaria e padoca decente. De preferência em vizinhança não acostumada a ocorrências policiais, que não goste de funk ou pagode em volumes demasiadamente altos, nem de garotos chutando bola em portões alheios e de marmanjos comendo esfihas nas calçadas igualmente alheias.

Interessados: enviar mensagem em bom Português (seguir a nova ortografia é um diferencial).

  

Enquanto isso, aceito doações de caixas e jornais. E um guarda-roupa novo, porque o meu não sobreviverá a mais esse evento.

Um beijo da vizinha pra você e pra todos os meus futuros ex-vizinhos.

Eu quis falar ontem que te amava. Assim, na segunda pessoa, mesmo. Você sabe que eu não gosto, mas usar o lhe ia parecer muito pensado, e de fato é, e aí você poderia duvidar. Porque o amor não é pensado, não é mesmo, e também não deve ser duvidado.

Mas então eu não disse nada. O problema todo é que eu fiquei olhando tanto aquele seu par de olhos com aquela coisinha que você passa nos cílios só pra ficar assim tão bonito, e também o seu cabelo, e aí o pronome veio me cutucar. Foi igual à primeira vez em que eu quase falei, mas seu cabelo era outro, porque o tempo era outro e faz tanto tempo. Você era outra, também, e eu era o mesmo. Na primeira vez eu fiz uma piada besta, você riu de alegre pra sem-graceza toda, e eu deixei pra depois. Na segunda vez o que me deu foi eu ficar pensando no seu jeito de rir, assim, sem mostrar os dentes. É tão bonito e eu não consigo fazer, não, eu tento na frente do espelho e não sai, ou melhor, sai tudo, os dentes todos; só você consegue rir tão grande sem mostrar nada, desse jeito.

Na terceira e na quarta vez eu não lembro não o que foi, deve ter sido só covardia, mesmo. Porque os meninos dizem deles pra eles que é eu dizer isso e você mudar. Os mais amigos dizem que você vai se rir toda pelas minhas costas; os mais perversos dizem que você vai embora. E eu não quero que você vá embora. Que mude, que se ria. Mas que não vá, não.

Na oitava vez foi o cheiro do seu cabelo que me deu vontade de usar a segunda pessoa. Eu demorei três semanas pra descobrir na perfumaria lá do bairro qual era o xampu que tinha feito aquilo comigo naquela manhã. E eu comprei o xampu, mas não uso, pra não gastar o cheiro que é assim só seu. E eu passei a achar que o cheiro do seu cabelo era tão-, tão-só-, tão-só-seu, que toda a prateleira da perfumaria ia passar do prazo de validade se você não fosse até lá pra comprar; e depois eu pensei que, nesse caso, você saberia exatamente quantos deles deviam estar lá, porque só você usa esse cheiro, ninguém mais em toda a cidade; e então você sentiria falta, e perguntaria pro dono da perfumaria, que perguntaria pro balconista, que me delataria; e então você saberia que fui eu, e me perguntaria, e eu não saberia o que responder, estaria condenado! Mas os dias passaram e você não comentou nada sobre um frasco a menos de xampu nos seus acontecimentos cotidianos, aqueles que você me conta todo dia, as coisas bobas que você guarda pra mim. Então eu cheiro o xampu aliviado até hoje, sem medo de ser descoberto.

A décima nona vez que a segunda pessoa me atormentou foi naquele dia, na fila  do cinema, em que você me abraçou, passou a mão no meu cabelo e me olhou de um jeito tão divertido que eu nem consegui assistir o filme depois, porque não tinha mais graça nenhuma. A vigésima sétima vez foi naquela lanchonete cheia de desenhos antigos nas paredes novinhas, e eu lembro que nem pedi sobremesa, porque o tal pronome oblíquo não deixou eu ler o cardápio em paz, e eu desisti. A trigésima vez foi naquele meu primeiro bom dia que viu você acordar, com aquela cara assim de preguiça que só você tem.

A sexagésima sexta vez foi culpa daquele céu azul-rosa-e-laranja que você fotografou tanto. A septuagésima oitava foi no dia em que eu ouvi você cantando antes de sair de casa. A octogésima quinta foi no seu aniversário. Na nonagésima sétima, a segunda pessoa me acompanhou durante aquela viagem, todos os quatro dias. A centésima décima foi quando o inverno chegou e deixou você usar aquele casaco com o cachecol xadrez de lilás.

A tricentésima vigésima segunda vez que o pronome fez com que eu lembrasse de todas as anteriores foi ontem.
.
.
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Mas, na próxima vez, eu falo.

Três garrafas vazias e o vazio era muito pra caber ali. A verdade é que tudo tinha acabado, fazia tempo. Não havia mais nada ali. Todo dia era a bebida, a bebida, o cigarro. Os olhos vermelhos. As fotos já amarelecidas, velhas, manchadas do azul da caneta que escreveu no verso. Isso tinha sido há muito tempo.

Tinha pensado em ir lá pra passarela velha. Não seria incomodado, se fosse à noite. Bem tarde, depois da novela. Não, depois da novela, não, tinha que ser enquanto passava a novela, assim não ia encontrar ninguém no caminho. Riu um bocado com a idéia e encheu o copinho colorido de novo. Podia ir bem mais tarde, não podia? O horário não importava mais. Lembrou de outros tempos em que o horário não importava também, e bebeu mais um gole. Olhou de novo pras fotos e os olhos arderam. Lembrou de como há muito tempo atrás era bom decidir não ir trabalhar pra ficar em casa com ela. Tinha feito isso e perdido o emprego algumas vezes, mas que era bom, era. Os olhos arderam um pouco mais.

Ficou de pé, tentando se equilibrar no encosto da cadeira azul encardida. Olhou em volta. Tudo ali era ela. Era ela sentada na cadeira ainda só azul, corrigindo as provas, com aquela letra redonda, grande, bonita. Era ela no tercinho de plástico transparente que imitava cristal. Era ela nos trecos todos de porcelana da estante, nos livros que ele não sabia ler, nas florzinhas de plástico da mesinha.

Era ela em tudo, toda noite, há quatro anos. Saiu pra rua.

Não era a primeira vez que tomava essa decisão. Já tinha pensado em fazer igual nos filmes, usar um veneno. Mas, ah!, que besteira. Atravessou a rua e continuou andando. Que veneno podia usar? Veneno de rato não mata é ninguém, estava cansado de saber disso e de ouvir história da própria boca de quem tomou o veneno. Lá na vila, mesmo, teve um menino que quis impressionar a filha do Jorge e tomou veneno de rato (ou era de formiga?) e não morreu coisa nenhuma. E ainda perdeu a moça pro menino da outra vila. Riu sozinho, balançando a cabeça e tentando equilibrar o corpo.

Ainda pensava no veneno quando chegou na passarela velha. Lembrou da música da infância, lá-em-cima-do-piano-tem-um-copo-de-veneno-quem-bebeu-morreu, achou graça lembrar disso àquela hora. Tentou cantar, a voz saiu rouca e babenta. Quase ninguém atravessava pela passarela de ferro depois que construíram a passarela nova de cimento, toda pintadinha de verde. Começou a subir a escada de degraus miúdos, se apoiou no corrimão e sentiu o toque das várias camadas de tempo, ferrugem e tinta, tempo, tinta e ferrugem, tempo, tempo e tempo, pensou.

Lembrou que, no começo, logo depois que ela foi embora, não queria que fosse assim. Não sabia como ia ficar quando chegasse lá embaixo. Iam ter que lacrar o caixão? Não sabia. Então, no começo, pensou no veneno, depois pensou numa arma. Mas onde ia arrumar uma arma? Em toda a vida, nunca tinha conhecido ninguém que usasse uma. Riu de novo, muito, com a boca muito aberta que o fazia sentir o cheiro do azedo e do álcool, quando lembrou da história da arma. Já estava no alto da passarela, vendo os caminhões passarem rápido e as luzes do amontoado de casas já longe, depois da passarela nova. Pensando na arma, pensou no segurança da portaria da faculdade, que devia ter uma, mas não tinha. E pensando no segurança da portaria da faculdade, pensou na faculdade. E pensando na faculdade, pensou no trabalho, lá na cozinha. Todo dia, desde as seis. Trabalho de cachorro, de corno, dizia. Trabalho de burro. Lavando pratos, mexendo com restos de comida, com um avental que nunca é branco, água-quente-detergente-água-fria, o barulho dos pratos se amontoando no balcão, os talheres que espirram a espuma gordurenta no avental. Um avental não branco envolvendo nada, ninguém.

Tentava não balançar, estava na beirada, tudo girando. Lembrou da menina ruiva com pequenas sardas no nariz. A menina que sempre fala bom dia, a única que fala bom dia e sorri, bem grande, bem branco. E olha pra ele, não pro avental. E se parece com ela. Todo dia ela deixa o prato no balcão e sorri. Ele sorri do jeito dele, apertando e alongando os lábios, não mostra os dentes. Trabalho de burro.

Cachaça demais, tudo rodando, arregalou bem os olhos pra ver mais um caminhão passar. Será que ela também quer ser professora? Os cadernos encapados com plástico xadrez, o cheiro do mimeógrafo. A missa das dez no domingo. O estômago enjoou de novo, o cheiro azedo. Tentou fechar os olhos, mas tudo rodava mais ainda. O casamento tinha sido tão bonito, palavras bonitas. O vestido branco e o cabelo dela, igual ao da menina educada da faculdade. Sentiu os braços tremerem, a mão suava e escorregava no ferro, o corpo foi pra frente e voltou. Filhos, não, não podia, foi o que o médico disse, Deus quis assim. Um dia veio o bilhete, então sobrou só a bebida e os pratos pra lavar. E a passarela velha.

Sentiu um amolecimento. A cabeça pendeu sobre o peito e as mãos escorregaram sobre a tinta, o tempo, o tempo. Sentiu o vento e sorriu. Igual a menina, pensou. Depois, foi o barulho, o céu negro, o alívio, a freada do caminhão. E o dia seguinte viu a menina ruiva entregar o prato sem sorrir grande, nem branco.

Coisa linda é portão de desembarque de rodoviária, leitor.

Nunca reparou? Pois marque aí em sua agenda – que deve estar cheia de contas para pagar, anotações de reunião, clipes e números de telefone para os quais você não liga – um dia para ir passear por lá. Nesse dia, vista-se de forma confortável, vá sem pressa e, se estiver frio, compre um bom café expresso para fazer companhia. Ou leve seu cachorro; garanto que ele vai gostar. Porque cachorros gostam de ver a vida; e dá pra ver a vida ali, no portão de desembarque.

Você vai ver namoradas e noivas e esposas e amantes ansiosas e perfumadas, apertando os dedos de unhas bem feitas, esperando algum rapaz bonitão; vai ver o filho que estuda fora chegando, de chinelo de dedo e mochila bem grande; vai ver a mulher baixinha esticando o pescoço enquanto anda na ponta dos pés por todo o corredor, procurando o marido que vai ajudá-la a carregar a mala de rodinhas; você vai ver crianças correndo e pais que, durante alguns minutos, não se irritam com essas crianças que correm tanto. Você vai ver um relógio enorme, bem acima do portão.

É, você vai ver saudade. Mas melhor que isso, leitor, você vai ver a saudade ir embora, esmagada por abraços de todos os tipos: apertados, rápidos, demorados, desajeitados, acompanhados de sorrisos, de beijos, de tapinhas ou de olhos fechados. Você vai ver quanta saudade existe no mundo, e vai perceber que quinze minutos podem parecer eternos. Se você gostar de brincar de adivinhar, pode perceber que as aparências enganam, e que a afetividade, o amor, o carinho e o sorriso fácil podem vir de qualquer pessoa.

Depois de tudo isso, você vai pensar na saudade diária que sente e da qual não fala, nos abraços que não dá, na importância que algumas pessoas têm na sua vida e na importância que algumas coisas não deveriam ter. Se você levar mesmo seu cachorro e olhar bem pra ele, talvez entenda o que esse amigo canino tenta dizer tantas vezes: algumas coisas simples rendem aprendizados gigantescos, e algumas coisas pequenas são menores ainda do que você pode supor.

Então, surpreso, você vai se perguntar por que ainda não abraçou seu cachorro nesse dia.

Oi, vizinho! Tudo bem por aí? Se você está lendo este post, tem a vantagem de ter uma conexão com a Internet funcionando normalmente e, por isso, talvez esteja melhor que eu. Talvez.

Estou esperando aquele moço chamado técnico ir lá em casa, ver que raio-coisa-diabo aconteceu pra eu ficar sem aquela luzinha DSL, assim, tão desconectada do mundo. Por isso deixo aqui mais um bilhetinho na porta da sua geladeira.

 Queria escrever sobre as polêmicas gramaticais que tumultuam as minhas tardes pacíficas e sobre a vida agitada de vizinha solteira, com suas baladas estranhas, seus amigos fofos, suas poucas horas de sono, seus telefonemas não recebidos e suas vingancinhas passivas. Também queria falar sobre o Rex, que, há meses, colocou seu lirismo barato numa trouxinha e disse que ia dar uma volta até o poste da esquina – e nunca mais voltou. Mas agora não posso escrever sobre nada disso. Estou sem Internet e tenho uma tarde linda, cheia de nada pra fazer; tenho um dia longo de verão, com suas sei-lá-quantas horas claras e seu horário especial; tenho uma janela de frente pra avenida, e a vida por aqui está ficando linda demais depois das 18h, com as pessoas em roupas leves correndo pra casa, sem perceber as milhares de luzes de Natal que já estão enfeitando os prédios; tenho um par novo de havaianas e um short jeans pra andar pela rua, com cara de despreocupada com as milhares de telas do emessene; e ainda tenho uns mais-de-vinte sabores de sorvete na padaria da esquina.

De repente percebi que há vida além do meu monitor de LCD.

Então, escrevo amanhã. Ou depois. Ou assim que o tal moço técnico disser que eu posso sair da janela e voltar pro computador – que estou pensando em decorar com um festão verde e dourado.

Beijo da vizinha!

Sim, vizinho… a vizinha, este ano, se enquadra naquele tipo chamado vestibulando. Ah, você não sabia? Pois é. Esse foi, por um tempo, um dos motivos da minha ausência neste blogue.

Vou poupá-los de explicar por que causa, motivo, razão ou circunstância eu decidi, depois de uma faculdade 90% concluída, virar vestibulanda no começo do ano – com direito à freqüência a um cursinho, alguns simulados, Enem e finais de semana sem vida social. Também não vou explicar minha escolha por um curso que só oferece 15 vagas.

O fato é que, durante as últimas semanas, estive afastada da vida de vestibulanda, fazendo coisas legais, me ocupando das mesmas coisas que pessoas-normais-que-têm-mais-o-que-fazer (ou não) se ocupam: compras, blogues, bares, amigos, viagens de férias. Mas, ontem, vi que a Fudest* divulgou a terrível lista com a relação de candidatos / vagas por curso. Isso me fez pensar sobre este ano que está quase acabando e sobre as coisas que aprendi no cursinho – e as que não aprendi, principalmente.

Por exemplo, graças ao cursinho, eu sei explicar porque a água evapora a 100 graus Celsius ao nível do mar, mas em temperaturas diferentes em condições de pressão diferentes; porque todos os gatos brancos de olhos azuis são surdos; porque os motoqueiros não caem no globo da morte e porque objetos de pesos diferentes têm o mesmo tempo de queda livre, quando jogados da mesma altura. Também sei que F=m.a, que P=m.g e que π é igual a 3,14 (bom, isso eu já sabia antes). Sei, ainda, porque qualquer remédio em gotas faz efeito mais rápido que um comprimido; o que é um catalisador; o que é luz difusa e porque enxergamos as cores. Também sei em que condições um objeto entra em órbita, o que são animais pseudocelomados e como derivar várias fórmulas pra chegar em outras. Além disso, posso dar uma aula inteira só sobre a Guerra do Ópio.

Tem mais, mas não vou colocar aqui, para nenhum vizinho ficar me pedindo pra explicar.

Enfim, aprendi várias coisas práticas. Aprendi muita coisa útil pra animar conversa de bar e pra impressionar irmãos loiros mais novos e pretês em geral (sim, funciona). Mas, decididamente, não estou preparada pro vestibular, vizinhos. Não estou preparada para perguntas técnicas e enunciados que contenham muitas letras x, y, z, μ, β e qualquer outra que possa aparecer por lá. Nem pra questões de matemática que ultrapassem a complexidade das quatro operações básicas.**

Mas, além das coisas práticas e nerdescas, aprendi outras coisas: me abrir mais pras pessoas, ser mais simpática e receber melhor a simpatia alheia; ter mais cuidado com as pessoas que, mesmo com pouca participação, fazem parte da minha vida cotidiana e corrida; compartilhar problemas e valorizar momentos divertidos (o meu aniversário deste ano, graças às pessoas que conheci no cursinho, foi um dos mais divertidos da minha vida).

Então, num momento “vizinha fofa”, coloco aqui uma foto das pessoas que me ensinaram essa porção de coisas – mais importantes das que eu preciso pra passar no vestibular, tenham certeza.

E enquanto o dia 23 não chega, vizinhos, vou acreditar na minha mãe, que diz que eu vou conseguir ser melhor que 240 pessoas inscritas pra, em fevereiro, colocar aqui uma foto minha com os dizeres “ECA-USP” na testa. Ela também diz que eu sou a mais bonita dos 255 inscritos, mas nisso eu não sei se devo acreditar.

Um beijo da vizinha pro pessoal do cursinho, pra todas as mães que acreditam em seus filhotes e pra todo mundo que vai participar da Fudest* 2009.

 

*Esse não é um erro de digitação.

**Mamãe sabe que nunca fui boa em exatas. Milagrosamente, consegui entender a tal matemática, até que chegaram os logs. Deixei essa parte de lado, mas fui desafiada e vencida pelo trio seno, cosseno, tangente – e seus parceiros secante e cossecante. Desisti, “entreguei pra Deus”, como diz uma colega minha.

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Oi, vizinho!

Sim, sim, eu sei. Eu estive fora por muito tempo, sim. Estive ocupada, cuidando do Rex – que esteve doente – e da vida do vizinho da frente – que vive recebendo cartas de cobrança -, espiando pela janela dos fundos e emprestando xícaras de açúcar cristal pra vizinhos que esquecem de fazer compras.

Mas agora voltei. E tem café quentinho, acabei de passar. Limpe os pés, vamos entrando! Só feche os olhos pra bagunça!

Não há coisa mais triste que passar vontade, queridos. Eu não gosto, não; mas quando falta coragem, o jeito é respirar fundo. Então, só pra aliviar (e ontem eu disse pra um leitor que eu era uma pessoa aliviada nessa vida, vejam só), fiz uma lista de tudo o que eu quis e não pude falar hoje, até as nove da manhã. Desculpem, queridos, mas eu estou engasgada, e além do mais, passar vontade desse jeito dá úlcera. É verdade que eu queria fazer placas com dizeres educativos e verbos no imperativo, mas desisti, tamanha seria a quantidade de cartolina e palitinhos de churrasco utilizada.

“Ai, sua anta, não adianta apertar o botão várias vezes com força, porque não vai ficar vermelho mais rápido!”

“Você é cego, não tá vendo que tá vermelho pra você, seu trouxa?”

“Ainda não aprendeu a carregar uma bolsa, né, minha senhora? Tá precisando de ajuda?”

“Por que diabos você está na catraca se não vai passar, minha filha?”

“Ai, menino, você não tomou banho hoje? Tira esse gorro, por favor; olha o calor que tá, ninguém agüenta mais seu cheiro”

“Você vai pisar no meu pé sem pedir desculpas mais quantas vezes? Assim, só pra eu saber.”

“Ai, menina, deixa de ser maloqueira, sua palhaça. Pára de gritar, o motorista não tem como passar por cima do trânsito, você é cega, sandia?”

“Vai descer? Não? Então tira essa bunda da porta, caramba!”

“Ei, qual é a dificuldade de não bater essa mochila na cabeça de todo mundo, hein?”

“Ah, tá com pressa, sai mais cedo! Desce aí, olha o ponto… vai a pé!”

“Tá bom, minha senhora, cala a boca, o motorista já ouviu que a senhora vai descer no próximo, calma! Já é a quinta vez que a senhora fala!”

“Lado direito, lado direito!”

“Ah, aprende a andar na rua, não sabe andar pra frente, não?”

“Sai com essa bicicleta da calçada, seu patamaz!”

Gosto mesmo da idéia das placas; mas seriam tantas, meu Deus. E se você, leitorzinho, está começando a ficar entediado com minhas histórias de ódio com o transporte público, saiba que eu também estou. É hora de tomar duas grandes medidas de emergência: ir buscar um copo grande de café e fazer uma pesquisa de ônibus fretados.

- Boa tarde, eu sou a vizinha aqui da frente, e essa é minha primeira sessão aqui, nesse grupo.

 

- Beem-viiin-daaa, Vi-ziiii-nhaaaa!

 

- Bom, eu estou aqui porque tenho um problema, doutor. Um problema comum, que muita gente tem. Um problema em lidar com um número muito grande de opções. Diga, por favor, que o senhor vai me ajudar.

 

- É…

 

- Parei para pensar no quanto isso é terrível, doutor. E angustiante. E opressor, e destruidor, também. Temos uma vida só e temos que escolher entre ser solteiras, casadas, mães, amantes, doutoras, malhadas, executivas, cultas, viajadas, ricas, baladeiras, boas filhas, agentes sociais, surfistas, cantoras, escritoras, ativistas do Greenpeace, professoras, consultoras ou donas-de-casa, citando apenas algumas opções, sem considerar as infinitas possíveis combinações. O problema, doutor, é que eu quero ser tudo isso aí. E eu não sou uma supermulher de Nova. E isso às vezes é triste, muito triste, doutorzinho.

 

- Bem…

 

- Sabe, minha amiga, por exemplo. Ela disse que não queria ser mulher de Nova, mas que queria o cartão delas às vezes. Ela pelo menos sabe o que não quer; e eu, que não sei nem isso ainda, me diz? E o tempo vai passando lá na minha janela da sala, e eu tenho medo de acabar sendo um pouco de tudo e nada por completo, doutor.

 

- Ãhnh, veja bem, dona Vizinh…

 

- Ah, eu já sei o que o senhor vai me falar. É, eu sei, sim, quer ver? O senhor vai me falar que isso é normal, que é uma fase e que vai passar. Que isso faz parte do amadurecimento, e que eu tenho que desenvolver melhor o meu autoconhecimento. Mas eu digo que não, doutor querido. Não, não e não. Eu já sei de tudo isso, e afirmo, doutorzinho, afirmo pro senhor que comigo é diferente, sim. Meu caso é muito pior.

 

- …

 

- Sabe, doutor, sabe o que eu queria? Eu queria ser conformada. Eu queria a bênção da ignorância sobre a minha cabeça cheia de cabelos que caem o tempo todo. Eu queria a cabeça vazia. Eu queria nunca ter conhecido o amor, ou nunca ter conhecido os programas de MBA, de mestrado e de intercâmbio, doutorzinho. Porque assim eu seria feliz por completo, assim, com um caminho só pra caminhar. Eu queria não ter a cobiça, não ter a ambição de querer tudo nesse mundo. Eu queria saber abdicar de algumas coisas. Diga que pode me ajudar, doutor… Eu quero uma receita médica. Um remédio pra esquecer. Tem que ser de tarja preta. Não, não, não peça pra eu voltar pra essa terapia de grupo, que eu não aguento, não, doutorzinho. Livros de autoajuda também não, que eu já li todinhos.

 

- Mas…

 

- Olha só, pra ficar mais fácil, vou dizer como é: se o senhor não me arrumar essa receita, doutor querido, eu vou viver frustrada o resto da vida. Porque eu não posso, porque ninguém pode fazer tudo o que quer, não é mesmo? Porque a vida é uma só, e isso é tão triste doutor! Viu como eu não preciso de terapia? É só uma receita; o senhor pre-ci-sa me ajudar.

 

- Eu acho que houve um engano, dona Vizinha. Você está na reunião anônima errada.

 

- O quê?

 

- …

 

**********

 

E não é que estava mesmo? O lema deles era só por hoje…. Não ia resolver, não. Não esperei o final da reunião, não, vizinhos, porque eu já disse: o tempo está passando rápido aqui na minha janela. E enquanto estava de costas pra ela, bebendo algumas cervejas, cheguei a pensar que queria ser uma mulher de Nova, só pra experimentar.

 

Mas agora estou de ressaca, e já mudei de idéia. Vou seguir o lema deles e pensar que, só por hoje, eu vou poupar grandes questionamentos. E da vida de mulher de Nova, vou evitar qualquer decisão maior do que saber com qual sapato vou trabalhar amanhã.

Olá, queridos!

O fascículo dois do IDPCSI escolheu a palavra da semana: louco. Se você conhece uma pessoa perturbada, louca, doida, maluca, daquelas que surta, bate a porta, chuta o cachorro, não ouve ninguém, grita o dia inteiro… ou qualquer outro tipo que se enquadre na categoria, mas não tem mais palavras para se referir a ela, seus problemas acabaram!

Anote aí num post-it pra não esquecer:

airado
1.Desvairado, alucinado, louco

alheio
10.Alienado, louco, doido

alienado
3.Louco, doido, desvairado, alheado
5.Aquele que é doido; demente, louco

aloucado
1.Que tende para a loucura; adoidado, amalucado

alucinado
2.Louco; desvairado
3.Fig. Irritado em grau extremo; fora de si; louco

delirado
1.Que está em delírio; louco, estonteado, delirante

demente
2.Pop. Louco, insensato

desassisado
1.Que ou aquele que não tem siso; louco, desatinado

desatinado
1.Falto de tino; fora de si; louco, estouvado

desequilibrado
2.Psiq. Que perdeu o equilíbrio mental; louco, alienado

doente
4.Bras. Apaixonado, louco, maníaco, fanático

insensato
1.Falto de senso ou razão; demente, louco; descocado

loucado
1.Louco, tresloucado

mentecapto
1.Que perdeu o uso da razão; alienado, louco, idiota.

orate
1.Doido, louco, maluco, idiota.

pinel
1.Bras. Gír. Pessoa adoidada, amalucada

reloucado
1.Muito louco; desvairado, tresloucado.

tresloucado
1.Desvairado, doido, louco.

Beijos da vizinha pra todo mundo - pros loucos mansos também. E viva o Aurélio!

porta_geladeiraQueridos,

Eu tenho, mesmo, muitas coisas sobre as quais gostaria de escrever hoje, acreditem. Quero escrever sobre propostas não entendidas, quero fazer outro manifesto pelo direito de não gostar, quero escrever sobre crises de dúvidas entre viver a vida do comercial de margarina ou a do folheto de intercâmbio (algo do tipo “Conheça a Austrália, faça novos amigos e viva a melhor época de sua vida!”).

Também quero falar sobre o conforto e a segurança que é ter um braço querido em volta de você ao acordar na manhã de um domingo qualquer. E quero falar de muitas outras coisas.

Mas não posso. Simplesmente porque descobri uma nova limitação hoje: não consigo escrever com meu dear boy atrás, enquanto o Corinthians faz gols contra o Ituano à minha esquerda. Não tenho essa capacidade, é impossível pra mim, desculpem-me. Não vou mentir e dizer que escrevo quando o jogo terminar, porque depois do jogo vem o restinho do domingo que passou sem nenhuma pressa, o programa que discute os dois gols feitos, talvez um cineminha com os amigos. E o gostinho de viver uma vidinha simples e sem grandes questionamentos – pelo menos aos domingos.

Então, escrevo amanhã. Ou não.

Beijos e bom domingo pra vocês.

Coisa interessantíssima é a variedade de tipos humanos que encontramos por aí. Apesar de não gostar muito de rótulos e classificações, é notável o quanto algumas pessoas se encaixam perfeitamente em estereótipos estranhos. E pra essas algumas pessoas, às vezes o rótulo é eficiente, facilita a descrição. Considero triste o fato de elas aparentarem gostar dessa busca – inconsciente ou consciente – de encaixe nos tipos. É feio estereotipar? É. Mas algumas pessoas pedem por isso. Eu pre-ci-so falar das Marias Transportinho. Que tipo curiosíssimo!

A Maria Transportinho é a vulgarmente conhecida Maria Lotação. É um subtipo do já conhecido tipo chamado Maria Gasolina; mais específicas, porém, elas se interessam por microônibus de qualquer linha, viação ou horário, indiscriminadamente, e por seus respectivos motoristas e cobradores. Os relatórios de sérias pesquisas empíricas do National Vizinhographic Institute mostram que existem pequenas variações, mas, em geral, esses indivíduos – do sexo feminino – atuam sozinhos ou em duplas, possuem aversão à ultrapassagem da linha da catraca, falam demasiadamente, apresentam uma disfunção que altera excessivamente o volume da voz e têm o hábito de manter assuntos pessoais sobre sua vida, de seu interlocutor principal ou de outrem.

As Marias Transportinho possuem dois tipos de receptores: o principal, que pode ser representado apenas pelo cobrador, pelo motorista, por ambos ou por qualquer outro funcionário de cooperativa de transportes vestido de verde-bandeira, e o secundário, que inclui todo e qualquer passageiro desprovido de fones de ouvido ou de deficiência auditiva que esteja simultaneamente presente no veículo.

“Ao que parece, a principal motivação das Marias Transportinho é o acautelamento de despesas, mas existem outros fatores que impulsionam esse comportamento, como a falta de assunto, de noção, de senso de ridículo, de ter o que fazer e de cobiça masculina”, diz a pesquisadora não identificada do National Vizinhographic Institute. “O principal problema é o volume da voz, que incomoda os passageiros pagantes com informações particulares que não lhes interessam”, explica outra pesquisadora, que considera muito difícil reintegrar esses indivíduos ao grupo das pessoas bem-educadas, mas afirma que “existem pesquisas promissoras, incluindo um protótipo de silenciador baseado em descarga elétrica, além de cartilhas que estão sendo produzidas pelo departamento de transportes do MAAMM, por exemplo”.

O MAAMM, Ministério Autônomo e Anônimo para um Mundo Melhor, confirma o projeto de distribuição de cartilhas educativas comportamentais, mas ressalta que é impossível prever quando os resultados serão perceptíveis. Não houve pronunciamento sobre o silenciador mencionado pelo National Vizinhographic.

O que importa é que ainda há esperança. Os passageiros pagantes do transporte público municipal aguardam ansiosamente. E a autora, aqui, espera que nunca uma filha sua lhe dê tamanho desgosto.

Olá, leitores! (será que esse blog tem, mesmo, leitores, excluindo os autores-criadores-corujas-leitores dos posts? bom, eu gosto de pensar que sim)

Esse é o post de estréia do IDPCSI – o Incrível Dicionário Prático Criativo para Situações Irritantes. O projeto inicial não incluía a palavra prático, mas como algumas pessoas não gostaram da sigla por razões pessoais que não merecem ser citadas aqui, resolvi inclui-la (e outra, coisa, o dicionário é meu, e já vou avisando que seu nome está sujeito a alterações sem aviso prévio).

A proposta (pra ninguém dizer que não entendeu a proposta) é apresentar, semanalmente ou com a periodicidade que Ateu permitir, um glossário com sinônimos diferentes para as palavras que utilizamos em momentos de estresse – se você ainda não entendeu a proposta, experimente utilizar o transporte público paulistano das 6h30 às 8h.

Argumento: A utilização do IDPCSI apresenta muitas vantagens, dentre as quais:

- Quebra a rotina: você não enjôa dos adjetivos que utiliza diariamente;
Diminui a violência urbana: aumenta a receptividade das pessoas alvos dos adjetivos, que na maioria dos casos não vão “entender a proposta”, gerando assim um menor número de discussões;
- Incentiva a consulta ao dicionário, a curiosidade e a leitura: válido apenas para pessoas alfabetizadas, claro;
- É fonte de diversão gratuita: faz com que as pessoas mostrem expressões faciais inacreditáveis.

A palavra de hoje é néscio, e para ela foram encontrados 6 equivalentes, abaixo listados e acompanhados por alguns de seus possíveis significados (só os que interessam para a nossa proposta, claro):

néscio
1.Que não sabe; ignorante, estúpido
2.Inepto, incapaz

estulto
1.Tolo, néscio, imbecil, insensato, inepto; estúpido

fátuo
1.Muito estulto; néscio, tolo, insensato
2.Que é vaidoso e oco; presumido, presunçoso, pretensioso

mentecapto
1.Que perdeu o uso da razão; alienado, louco, idiota
2.Néscio, tolo, tonto

patamaz
2.Idiota, néscio, toleirão

peco
5.Fig. Néscio, bronco

sandeu
1.Idiota, parvo, tolo, néscio, estúpido

That´s all, Folks! Beijos pra todo mundo – menos pros patamazes, claro.

E viva o Aurélio!

- ou Peraí, eu não sou um monstro!

Sabem, queridos, desde a minha adolescência, eu sempre fui do contra. Sempre gostei de gostar do que todo mundo não gosta, e de fazer o que todo mundo não faz. Minha mãe dizia que era pra criar polêmica; eu digo até hoje que é coincidência. A verdade é que eu simplesmente gosto de fazer o que eu tenho vontade – e só. Com e só eu quero dizer e não fazer nada, absolutamente nada, que eu não tenha vontade. É verdade que algumas vezes eu quis criar polêmica, sim. Mas isso já faz muito tempo – recuso-me a dizer há quanto tempo a minha adolescência acabou.

Acredito que muitas coisas tem três graus de classificação. A vontade de fazer alguma coisa, por exemplo: ou eu tenho vontade de fazer, ou eu tenho vontade de não fazer, ou é indiferente. A questão é que eu levo isso tão a sério na minha vida que o gostar – de coisas, de pessoas, de lugares, de atitudes, de tudo – também tem classificação. Então, meu bem, ou eu gosto, ou eu não gosto, ou eu desgosto. Nada pessoal; ninguém explica o gostar, é um ato involuntário.

Sim, queridos, é involuntário, e eu sei que todo o resto do mundo chega a essa conclusão, se pensar um pouquinho. Então, me diz, me diz, por favor, porque cargas d´água é que as pessoas todas do mundo reprovam o fato de alguém não gostar – não gostar, lembrando, é diferente de desgostar: o não gostar é a indiferença, é um limbo do sentimento, digamos: nem céu, nem inferno. Prestenção, meu bem: o fato de um alguém A ter estudado com um alguém B anos e anos, ou ter trabalhado, ou ainda conviver diariamente com alguém XYZ não garante que haja um gostar recíproco entre os elementos. Simples, não? Mas é só manifestar isso, que Aaaah! Sempre existe o reprovado gostar não correspondido – ou seja, o não gostar.

Estou cansada desse pressuposto que diz que se alguém gosta de mim, eu tenho que corresponder. Eu disse que não quero ir àquele churrasco; então é um tal de “Nossa, como você é…” e “mas todo mundo gosta tanto de você!” e “Não acredito! Por quê?”. E eu respondo o porquê. Porque eu não gosto das pessoas que estão lá. Eu só as conheço. Eu só estudei com elas, elas são legais, são divertidas, eu não desgosto de ninguém. Mas também não gosto. E pra eu gastar meu tempo com alguém, fazendo qualquer coisa, meu bem, eu tenho que gostar. Isso se estende, é claro, para chás de bebê, festas de aniversário, velórios, casamentos, reuniões de família, visitas a viúvos, enfermos e bebês recém-nascidos e festas de Natal.

Neste momento estou sendo observada com caras e expressões merecidas por uma homicida, mas não vejo nisso um problema. Numa crise de adolescência retardada eu repito: não gosto de nada obrigada. E não, queridos, essa frase não tem vírgula.

Sinto a tarde falsa e real
(como margaridas de plástico
num copo de requeijão).
E toda a poesia, diante disso, foge
como mosca assustada,
entre as persianas sujas de sol.

A microesfera azul rola sem destino pela folha.
Pela bolha,
pela rolha?… ah! tão sem rima,
E a mão já não tem mais a destreza leve
que arrumava as flores no copo.

…Folhas depois, próxima linha,
dois dedos e parágrafo:
tudo pronto, esperando
pela linha que não vem. Enquanto isso
continua a tarde real e dolorida,
como o esparadrapo que faz a vez de fita
naquelas margaridas de plástico.

chuva

Repentinamente, não se ouve o som das risadas,
nem das latas de refrigerante sendo abertas.
Não se vê o corre-corre, o uestope,
o pega-pega,
nem o azul e branco dos uniformes.

Tudo é silêncio e água.

Somente a barraca do cachorro quente sobrevive,
molhada,
esperando que o dia seguinte venha
com o sol, os alunos, as moedas de um Real
e os cachorros da rua, deitados na calçada,
lambendo o pouco sol do dia frio,
bocejando preguiçosamente,
- como se o sol não houvesse acabado.

Ônibus elétrico, conhece? Confortável, silencioso e lento, extremamente lento.

A moça entrou e sentou no último banco – aquele perto da porta – do lado da janela. Assim que o ônibus virou e entrou na avenida principal, percebeu que tinha escolhido o lado errado: muito sol. Agora não dava mais pra mudar, os outros lugares estavam ocupados. Paciência.

Paciência era o que faltava pra ela naquele dia. Nada tinha dado certo. E pra cada uma das coisas, pra cada parte delas, havia um culpado. O motorista do ônibus anterior, a SPTrans, a moça do guichê do terminal, o maldito aquecimento global, a operadora de celular. Ela era vítima das circunstâncias, apenas… coitada dessa moça.

Terceiro ponto da avenida. ”Ônibus lerdo”. Pára, abre a porta. Sobem pessoas. O menino pede pra passar por baixo, o cobrador deixa.

“Por isso esse país não vai pra frente”.

O menino passou e foi andando pelo corredor. “Por isso é que a passagem aumenta desse jeito, R$2,30 é um absurdo!”. O menino senta do lado da moça. Ele e sua caixa de engraxate.

Melhor ignorar, esquecer tudo, e aproveitar o conforto do ônibus. Tentou se concentrar na música que saía do fone de ouvido e não pensar no sol que queimava seu braço direito.

Movimento. Ponto, pára, abre portas. Movimento, farol, pára. Barulho e chiado, provavelmente de algum lugar da rua. Não, não, muito perto, e o volume não diminuía. Era rádio, mas onde?

Olhou pra frente. O menino de boné e óculos de sol olhava pra ela (ela tinha certeza disso, apesar de não conseguir ver os olhos dele). E a música? O menino sentado ao lado dela tinha um radinho de pilha. Sem fones.

“Nossa, ninguém vai falar pra ele desligar isso? Que coisa, moleque sem noção… ninguém tem a obrigação de ouvir o que ele ouve. Idiota!”

O menino agora movimentava o radinho: acima da cabeça, do lado direito, de cabeça pra baixo, tudo pra tentar fugir da interferência. Mudava a estação. Mais chiado. Chacoalhava o radinho: nada.

“Tenho certeza que eu vi em algum ônibus um adesivo sobre aparelhos sonoros… cadê?” Procurou pelo ônibus, não achou, estava sem óculos, não acharia nada desse jeito, mesmo.

“Pra que é que um engraxate precisa desse maldito radinho? Olha só com o que gasta o dinheiro… por isso é que eu não dou dinheiro pra criança de rua. Se é que comprou, e não roubou isso de alguém…”

O barulho diminuiu. Ela olhou pro lado, ainda de cara feia. O menino tinha colocado o radinho dentro da caixa. Ela desviou o olhar. Barulho de novo: o menino estava abrindo e fechando a tampa da caixa, com a cabeça inclinada, brincando de ouvir o som sumir e aparecer de novo…

“Saco, onde esse moleque vai descer?” Não tinha nenhum outro lugar disponível, a não ser do lado do cara de boné e óculos escuros, na frente dela, naquele banco invertido. Tirou o MP3 da bolsa e aumentou o volume. “Pronto, agora eu ouço minha música em paz”.

O menino ficou olhando pra ela. Acompanhou o trajeto do fio do fone até a bolsa, olhou a bolsa, e olhou pra moça de novo, admirado. Algo o agitava por dentro, uma curiosidade antiga prestes a se libertar. Cutucou o braço dela.

- Moça, o que é isso? – o dedo apontava pra bolsa dela.

Ela olhou, assustada. Tirou o fone do lado direito, manifestando toda a irritação possível nesse gesto.

- Quê? – a cara era de nojo.

- Nada não, desculpa…

Ela colocou o fone de novo, encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos. Ele abriu a tampa de novo. O moço do boné chamou o menino:

- Vem cá.

- Eu?

- É.

O menino foi, com a caixa pendurada no ombro.

- O que é?

- Como é seu nome?

- É Carlos.

- Quantos anos você tem, Carlos?

- 8 e meio.

- Tá, Carlos. Eu chamo Marcelo. Eu te explico o que é isso aqui – e mostrou um MP3, sorrindo. Mas você desliga o seu rádio antes? Tá fazendo muito barulho no ônibus.

O menino corou.

- Ah, desligo. Desculpa, nem tinha percebido – olhou envergonhado em volta.

Então explicou pro menino pra que servia um MP3. O menino se desinteressou logo que ele disse que pra ouvir outras músicas, e não só o rádio, precisava de um computador:

- Ah, não… eu não tenho um em casa. E não sei mexer nisso, também. Pra ouvir só o rádio, uso esse aqui, mesmo.

Desceu no próximo ponto, acenando pro Marcelo. A moça ficou lá, de olhos fechados, e foi até o ponto final, fingindo que não tinha ouvido nada da conversa dos dois. E fingindo que o Carlos, antes de ser um engraxate, não era só um menino de oito anos.

semaforo_verdeEle ganhou dinheiro, ele assinou contrato
E comprou um terno, trocou o carro
E desaprendeu a caminhar no céu, e foi o princípio do fim

 

O farol estava aberto, mas isso não fazia diferença. O trânsito era tanto que Beto já havia contado: o verde apareceu 5 vezes, e ele andou quanto? 6, talvez 8 metros. Trocou a estação de rádio e encostou-se completamente no banco, esticando os braços, apoiados no volante.

Olhou para o lado, distraído, cansado de contar quantas vezes o semáforo mudava de cor. No próximo verde, dava pra passar. Foi então que ele o viu.

***

O passageiro no táxi parecia impaciente:

- Colega, aqui sempre tem esse trânsito todo?

- É, às vezes tem. Mas às vezes não tem, também. Depende muito, doutor…

- E não tem outro caminho pra chegar lá?

- Olha, doutor… ter, tem.  Eu costumo dizer pros passageiros que sempre tem outro caminho pra chegar em qualquer lugar. Mas a gente não tem como sair daqui antes daquele farol ali, não.

- Tá. Tudo bem, então. Deixa pra lá – e pensou em quanto odiava o rodízio municipal. Pegou o celular, discou, e esperou a voz feminina, familiar, atender. Avisou a secretária, em meio a caretas e ao barulho de algumas buzinas, que chegaria atrasado, e pediu que avisasse os outros acionistas que compareceriam à reunião. O motorista olhou pelo retrovisor com ar admirado para o passageiro.

“Nossa!” – pensou – “Esse é doutor mesmo, é até acionista!” Era difícil pegar corridas assim, com gente importante, naquela parte da cidade. O interesse pelo passageiro surgiu desde que ele entrou no carro, de terno, gravata e maleta de notebook, cheirando a colônia importada – “E importada, mesmo, não é dessas que qualquer um compra, não, eu sei reconhecer quando o passageiro tem … esse aí é granfino. E gente de dinheiro não gosta de assuntar com taxista, não. Eles nunca dão muita atenção pra conversa”.

***

Era inacreditável a coincidência! Como, ali, no meio do trânsito, encontrar o Nando! O Nando Batata, o Luís Fernando – que odiava o primeiro nome, e pedia que todo mundo o chamasse de Nando, apenas – que incrível! Era ele no táxi, Beto tinha certeza. Ele nunca confundiria aquele rosto, mesmo depois desses últimos 5 anos. Parou, perplexo, de boca aberta. 5 anos, 5 anos! Como é que alguém passa 5 anos longe do melhor amigo, aquele que conhece você até o último fio de cabelo? O que havia acontecido, mesmo? Ah, sim, essa moda de mudarem de número de telefone com a mesma freqüência com que se troca de escova de dentes. Beto nunca mais conseguiu falar com o Batata, o celular agora era de outra pessoa, e o residencial também havia mudado. E o Nando Batata tinha mudado para um apartamento, mas ninguém no bairro sabia o endereço. Beto tentou consultar a lista, ligou para a Telefônica, e nada. Havia perdido o Batata de vista… e o Batata com certeza tinha perdido seu número, também, porque nunca mais ligou. E, agora, ali estavam os dois, lado a lado, no trânsito da Radial Leste.

Beto e Nando cresceram juntos. A mãe do Beto, dona Sandra, ajudou a mãe do Batata quando o marido a abandonou, sozinha, com um filho recém-nascido nos braços. Elas já se conheciam há algum tempo, “amizade de mercado”, dizia o pai do Beto, mas dona Sandra fez que fez até conseguir convencer o marido a dar abrigo pra Sheila – era o nome dela. Afinal, uma mãe, abandonada, prestes a ser despejada… era desumano não fazer nada. Depois de dois anos e meio Sheila saiu de lá, mas continuou morando no bairro, e o Batata – o nariz dele é que justificava o apelido – continuou freqüentando mais a casa do Beto – o Betinho, como ele chamava – do que a própria. Estudaram juntos até o terminarem o colégio, eram a dupla terrível da escola. Estavam juntos no primeiro porre; na primeira briga; no primeiro emprego – office-boys no escritório de contabilidade do senhor Martinho. Aprontavam várias. Descobriram as mulheres na mesma época, e nada nem ninguém os separava. Eram como irmãos, e era assim que Nando gostava de apresentar o amigo: “Esse aqui é o meu irmão, o Beto”.

Depois de um ano de emprego, o escritório do senhor Martinho fechou. O Nando conseguiu um emprego de auxiliar administrativo em uma firma grande, e o Beto foi trabalhar de empacotador em um mercadinho do bairro. Era temporário, mas de mês em mês ele foi ficando, até conseguir ser caixa, e depois virou fiscal de caixa. “É temporário”, ainda dizia para si mesmo todo dia, mas a namorada grávida, as despesas com a mãe doente, o aluguel de todo mês não davam tempo pra ele pensar em nada melhor.

- Quando tudo melhorar, Celinha, eu faço um curso e arrumo um emprego melhor. – E a Celinha, barriga de 6 meses, caixa do mercado, olhava feliz pra ele, depois pra barriga, e sorria.

Nesse tempo todo no mercado, Beto sabia que a rotina dos amigos havia mudado. Nando trabalhava demais, e a firma era longe. Eles mal tinham tempo pra se ver, e no final de semana Beto tinha que abrir e fechar o mercado. Não havia mais tempo pro futebol no sábado de manhã, nem pro filme, nem pro pagode de domingo, pra cerveja. E quando Beto conseguia folga, o Nando sempre tinha alguma coisa pra fazer.

Assim foi indo, por uns três anos e meio em que  eles ainda conversavam, sempre que o Beto ligava – bom, só o Beto ligava. Ele sabia que o Nando estava com um cargo bem melhor, diretor de qualquer coisa que ele não conseguia lembrar pra contar pra Celinha, e sabia também que ele estava terminando a faculdade. Tinha orgulho do amigo, era como ver um irmão se dar bem na vida, uma felicidade enorme. Depois disso foi que o Beto ligou pra convidar o Nando pra um churrasco de aniversário, e descobriu que os telefones haviam mudado.

- Alô.

- Nando!!! É o Beto.

- Desculpa, esse telefone não é de nenhum Fernando - disse a voz do outro lado da linha.

- Tem certeza? Olha, o número aí é… ?

- É esse mesmo, mas não é de nenhum Fernando. A linha é nova, comprei faz pouco tempo.

- Ah, Nando, pára de brincadeira!

- Desculpa, já disse que esse número…

- Ah… Tá, desculpa. É que além de tudo sua voz é parecida, foi mal, mesmo, cara…desculpa.

Isso se repetiu umas três vezes, até que Beto se convenceu de que realmente estava discando certo, e de que o Fernando tinha mesmo mudado de número.

Então, 5 anos se passaram…

***

Tudo isso passava em flashs na cabeça de Beto enquanto ele olhava o táxi, aquele passageiro de celular na mão, e pensava no que ia fazer. Buzinou. Buzinou de novo. O taxista olhou. Beto acenou e o taxista entendeu.

- Doutor – e apontou o dedo pra direita -, está chamando o senhor.

Beto tinha aberto o vidro do carro adesivado do mercado, e acenava euforicamente. Nando baixou o vidro, deu um sorriso indecifrável, ergueu as sobrancelhas:

- Puxa, Beto… há quanto tempo!

- Nando, caramba, não acredito! Que bom, que felicidade, cara!

- Doutor, o farol vai abrir…

- Tá indo pro escritório?

- É, estou.

- E aí, como você está? Onde você está morando? Cara, te procurei tanto…

- Doutor…

- … olha, olha, o farol vai abrir, Nando… me passa seu telefone, cara, eu te ligo. A gente precisa conversar… Tanto tempo…

O sorriso de Fernando vacilou, e ele passou o número. Beto anotou num papel, e guardou no bolso da camisa. O semáforo abriu, e os dois carros se separaram.

***

- Coincidência, hein, doutor? Reencontrar um amigão, assim, no trânsito!

- É, mais ou menos… – deu uma pausa enquanto abria a maleta a ligava o notebook – … não é amigo, não, ele só estudou comigo.

- Ah, entendi… puxa, e o nome do senhor é Fernando, também, doutor! Sabia que o senhor era gente boa, reconheci logo. Eu chamo Fernando – e sorriu – e meu filho também, o Fernandinho. Nossa, o senhor acredita que…

- Não, não, colega. Meu nome é Luís. É Luís Fernando, mas ninguém me chama pelo segundo nome, eu não gosto. É Luís.

E começou a digitar alguma coisa no notebook, enquanto o taxista, calado, pensava que realmente essa gente com dinheiro não gosta de conversa.

E o Beto, no final do dia, percebeu que sabia o que ia ouvir se ligasse pro Nando. O número não tinha mudado, era o mesmo que estava na velha agendinha com capa de acrílico, do lado do telefone da sala. O número era o mesmo, o Nando é que não era.

E eu vi tudo isso ali, da calçada do cruzamento onde os dois se encontraram. Ouvi a conversa e vi a expressão no rosto do Nando – ou do Luís, que seja! E pensei que é uma pena que os meninos um dia cresçam.